Vernissage – Instituto de Práticas Artísticas Integrativas

Criar é um ato meditativo, e expressar-se é uma necessidade vital. Partindo dessa premissa, o projeto Vernissage – Instituto de Práticas Artísticas Integrativas investiga o encontro entre arquitetura, corpo e inconsciente como forma de ampliar o acesso à cura e ao autoconhecimento por meio da arte. A proposta nasce da constatação de que os processos criativos, historicamente atribuídos apenas a artistas “legitimados”, são, na verdade, instrumentos de contato profundo com aquilo que não se nomeia. Amparado por referências de Freud, Jung e Nise da Silveira, o projeto compreende a expressão artística como uma via simbólica para investigar emoções, ressignificar experiências e elaborar subjetividades.
Localizado em Porto Alegre, na Rua Gonçalo de Carvalho, conhecida popularmente como “a rua mais bonita do mundo” por sua vegetação exuberante, o edifício se implanta em um fragmento residual de tecido urbano: parte de um grande estacionamento subutilizado, ocupando uma área improdutiva, permitindo assim que se requalifique o entorno, ative fluxos e fortaleça o circuito cultural já existente, sem que se crie novo solo urbano. A edificação se acomoda à topografia acentuada, estruturando-se em três pavimentos que se acomodam ao declive do terreno. Assim, a volumetria sul apresenta caráter sóbrio e monolítico, enquadrando a floresta urbana como um grande pano de fundo sensível e silencioso; enquanto a face norte se abre generosamente para o horizonte do Lago Guaíba, permitindo a entrada plena de luz e ampliando a profundidade visual dos espaços internos.
O programa reúne ateliers de artes manuais, salas de dança e yoga, auditório, salas de atendimento psicológico, terraços, restaurante e uma ampla área pública aberta e coberta, concebida como extensão da rua e ativadora da vida urbana. Tal diversidade espacial busca acolher diferentes perfis de usuários, desde pacientes encaminhados pelo SUS até visitantes ocasionais, crianças, idosos e frequentadores culturais. A arquitetura opera, assim, como mediadora entre cuidado, expressão, criatividade e convivência.
As atmosferas internas são pensadas para favorecer estados de presença e introspecção. A luz natural é cuidadosamente modulada: filtrada pela copa das árvores na fachada sul, plena e expansiva no setor norte, delicadamente controlada nos pátios e transformada em cores mutáveis nas claraboias, um gesto poético, que evoca o lúdico e o imaginário, simbolizando o próprio processo criativo: inesperado, delicado e profundamente humano. Esse respiro cromático contrasta com os materiais neutros e texturas sensíveis que contribuem para uma ambiência contemplativa, que não distrai, mas acolhe.
O percurso arquitetônico é marcado por transições suaves entre o mundo externo e o interno. A recepção funciona como um primeiro gesto de abrigo; o foyer conduz ao auditório e às áreas expositivas; pátios internos permitem pausas e conexões visuais entre pavimentos; os terraços e espelhos-d’água aproximam o corpo da paisagem. Já as salas de dança, amplas e silenciosas, recebem o movimento corporal como protagonista.
Enquanto programa público, o Vernissage se alinha às políticas nacionais de saúde integrativa e responde ao cenário contemporâneo de crescente adoecimento mental. Vernissage propõe um ambiente de escuta, expressão e reconexão, onde arte, arquitetura e cuidado se entrelaçam para transformar experiências individuais e coletivas.

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