Reintegração Urbana do Conjunto Habitacional Ney Azambuja (COHAB) ao bairro São Jorge

A estruturação dos tecidos urbanos brasileiros é marcada por contradições que resultam na fragmentação socioespacial e ambiental, segregando populações de baixa renda em territórios desestruturados. Em Bagé (RS), o Conjunto Habitacional Ney Azambuja, construído na década de 1980 e posteriormente extinto enquanto COHAB, exemplifica essa realidade. Apesar de exercer papel centralizador em relação ao bairro São Jorge e ao entorno, o conjunto não é reconhecido como parte integrante do bairro e pouco é assistido como área de interesse social, elemento delimitado no plano diretor, permanecendo estigmatizado e com infraestrutura precária. O trabalho propõe a reintegração urbana do conjunto ao bairro São Jorge, articulando dimensões sociais, ambientais e morfológicas por meio da ecologia da paisagem e dos Sistemas de Espaços Livres (SELs). A metodologia envolve leituras em três escalas: a macro, que compreende o território e as relações entre áreas urbanas e rurais, considerando corredores verdes e azuis, áreas de preservação permanente (APP) e a Área de Proteção Ambiental Chico Mendes; a meso, que abrange o diagnóstico do bairro São Jorge e entorno, com destaque para as vulnerabilidades socioambientais e a revisão dos instrumentos do plano diretor, onde busca-se através dos instrumentos urbanos revisados, propor ferramentas que assegurem a aplicabilidade das propostas e também garantam a permanência das populações locais em caso de requalificação e reintegração, na intenção de evitar processos de gentrificação verde; e a micro, concentrada na macrozona emergente, área de 17,45 ha, onde se localiza a COHAB, outros conjuntos de interesse social e elementos estruturantes do sistema ambiental. A proposta estabelece diretrizes para a recuperação de áreas degradadas, a consolidação de espaços públicos e a diversificação de usos com base em critérios de vulnerabilidade ambiental, risco edilício e renda. Para intervenção na escala Micro, foram definidos seis trechos, trabalhados em 3 eixos de mobilidade, aspectos sociais e ecológicos, acompanhados de planos gerais de coleta de resíduos, drenagem, efluentes e arborização. As ações incluem a criação de corredores ecológicos e ciclofaixas, requalificação das avenidas de acesso à área central, implantação de parque de baixo impacto, hortas comunitárias e construção de centro comunitário – previsto para a área da cohab mas nunca desenvolvido-, além da realocação de famílias em áreas de risco e do incentivo à arborização com espécies nativas e frutíferas do bioma Pampa. A abordagem integra planejamento urbano e ecologia e reconhece a importância das práticas e vínculos cotidianos da população. O projeto busca requalificar o território a partir de atividades que já ocorrem na área em espaços informalizados e demandas captadas através de entrevistas com a população e dinâmicas realizadas com o público infantil. Parte-se de uma leitura crítica da segregação socioespacial mas também são reconhecidas as potencialidades e dinâmicas presentes na paisagem periférica. Assim, a reintegração da COHAB Ney Azambuja ao bairro São Jorge, agrega aspectos territoriais, ambientais e sociais, entendendo que estes são elementos indissociáveis para intervir no território.

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