O estudo intitulado [re]habita: do vazio ao novo morar busca refletir sobre a complexidade da habitação no Brasil, como campo de disputa, memória e possibilidade. Ao revisitar a formação histórica das políticas habitacionais e seus recorrentes fracassos, evidencia-se a complexidade que atravessa o tema: processos lentos, descontinuidades institucionais e sucessivas mudanças de governo que rompem ciclos e desarticulam políticas em andamento. Tal descompasso fragmenta a lógica de promoção da cidadania e compromete o avanço do planejamento urbano, distanciando ainda mais a garantia do direito à moradia. Nesse sentido, compreender a habitação como eixo estruturante da vida urbana, revela-se fundamental para enfrentar as urgências contemporâneas. Embora o estudo não apresente um problema inédito, ele ressalta a necessidade de repensar modelos, operar deslocamentos e formular novas estratégias de viabilização habitacional. A reabilitação de estruturas existentes surge, assim, como possibilidade concreta e responsável, capaz de reinserir no circuito urbano espaços ociosos, abandonados ou subutilizados. Habitar não se reduz ao âmbito doméstico: habitamos também a cidade, e a forma como nos distribuímos no território determina o acesso a oportunidades, serviços e infraestrutura. A vitalidade urbana, sua manutenção cotidiana e a diversidade de usos são condições imprescindíveis para que diferentes corpos possam ocupar, transitar e pertencer ao espaço coletivo. Dessa forma, ao apresentar cenários possíveis para os problemas abordados, o trabalho convoca um olhar ampliado que reafirma a centralidade da habitação como elemento estruturante da justiça socioespacial. Nesse contexto, o estudo enfatiza a urgência da revitalização do centro de Porto Alegre, compreendido não apenas como área degradada, mas como campo fértil para reintegração urbana e democratização do acesso à cidade. A área de intervenção abriga um exemplar significativo da Arquitetura Moderna no sul do Brasil, construído em 1966 e projetado por Moacyr Moojen Marques, João José Vallandro e Léo Ferreira da Silva. Originalmente sede da Secretaria Municipal de Obras e Viação (SMOV), o edifício encontra-se hoje subutilizado, revelando o potencial dos vazios urbanos como dispositivos de transformação. O programa de necessidades propõe a inserção de unidades habitacionais, comércio local, espaços culturais e, na nova edificação implantada em paralelo à estrutura existente, ambientes como cafeteria, ateliê, sala de aula, espaços colaborativos e áreas destinadas a atividades práticas. Os dois edifícios se articulam por meio de uma praça pública, configurando uma transição fluida entre interior e exterior e fortalecendo a vida comunitária. A materialidade adotada reforça essa narrativa de continuidade e reinvenção. A edificação existente mantém seus elementos originais, o concreto aparente e a estrutura marcada, preservando a memória do lugar e reconhecendo sua importância histórica. Já a nova edificação adota estruturas metálicas, fechamentos translúcidos, cobogós e tijolos aparentes, compondo um conjunto leve e permeável, atento à luz natural e à integração com a praça. Essa combinação expressa não apenas escolhas técnicas, mas uma intenção poética: costurar passado e futuro, densidade e respiro, preservação e experimentação. Assim, o projeto apresenta-se como gesto político e urbano: transformar o vazio em possibilidade, reafirma que reabilitar é também reencontrar sentido e, sobretudo, reinventar maneiras de habitar a cidade.


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