O Projeto Arruar nasce de uma inquietação sobre a forma como a população de
Santa Maria enxerga os bairros periféricos da cidade. O município, localizado no estado do
Rio Grande do Sul, teve a zona oeste desenvolvida a partir da criação do distrito industrial.
Esse empreendimento previa dois conjuntos habitacionais destinados a abrigar seus
trabalhadores, que mais tarde se tornaram conhecidos como Cohab Santa Marta e Cohab
Passo da Ferreira. Esta última, posteriormente renomeada para Bairro Tancredo Neves,
manteve o histórico de habitação de interesse social e o estigma de “bairro pobre”.
Apesar desse estigma, o bairro evoluiu significativamente e, hoje, conta com uma
diversidade de serviços que atendem grande parte das necessidades de seus moradores,
reduzindo a dependência em relação ao centro da cidade. Nesse contexto, surge a
proposta de um projeto capaz de criar uma identidade local e evidenciar que o bairro possui
riqueza em movimento, vida e dinâmicas próprias.
O Projeto Arruar consiste no redesenho urbano da Avenida Paulo Lauda, principal
via do bairro. A avenida, que o atravessa longitudinalmente e conecta o Parque Pinheiro
Machado à BR-158, concentra a maior parte dos comércios, serviços e equipamentos
públicos da região. Para chegar ao redesenho urbano final, o projeto foi estruturado em três
escalas.
A escala macro compreendeu o planejamento geral do bairro, com definição de
diretrizes e planos estruturantes. A escala meso envolveu o planejamento do redesenho
da avenida, incluindo arborização, reorganização do transporte e reconfiguração dos
acessos ao bairro. Por fim, a escala micro apresentou aproximações projetuais em trechos
específicos, detalhando o redesenho de forma localizada. Além da pesquisa documental,
foram realizados levantamentos de campo, aplicando metodologias de diagnóstico urbano
baseadas em Jan Gehl e no TOD Standard.
O conceito central do projeto é o de potencializar as características já existentes e
promover um ambiente verdadeiramente humanizado, pautado em vitalidade, segurança,
sustentabilidade, saúde e mobilidade. A proposta busca criar espaços onde o pedestre
seja prioridade, promovendo a desaceleração do trânsito, ampliando a acessibilidade,
fortalecendo a identidade local e estimulando conexões entre as pessoas e o território.
Para alcançar esses objetivos, foram empregadas diversas estratégias:
–pavimentação e desenho viário para controle de velocidade;
–reorganização da hierarquia viária para ampliar a participação da mobilidade ativa;
–soluções de drenagem urbana sustentável para mitigar alagamentos;
– planejamento de iluminação e infraestrutura elétrica como ferramenta de segurança
pública;
–plano de arborização urbana para melhoria do conforto térmico;
– manutenção e qualificação de índices urbanísticos em apoio às transformações gerais
do bairro.
É por meio da mudança de prioridades no espaço público que o pedestre volta a
ocupar a cidade — e, assim, as cidades tornam-se mais humanas.


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