O rio, a ilha e o presídio: A Ilha das Pedras Brancas como lugar de memória e interpretação ambiental

Localizada no rio Guaíba, entre os municípios de Guaíba e Porto Alegre (RS), a Ilha das Pedras Brancas constitui um território de grande relevância histórica, cultural e ambiental.
Ocupada a partir de 1850 para abrigar a Casa da Pólvora de Porto Alegre, teve seu uso revertido em presídio político durante a Ditadura Militar Brasileira, configurando-se, hoje, como um lugar de memória desse período. Além de sua dimensão histórica, destaca-se também pela singularidade ambiental: sua formação geológica única e o pequeno ecossistema que ali se desenvolveu abrigam fauna e flora diversificadas, compondo um ambiente de grande valor paisagístico. Apesar de tombada como patrimônio em 2014 pelo IPHAE, a Ilha permanece em abandono há mais de 40 anos, com edificações em ruínas. Em 2024, foi severamente afetada pela enchente histórica que atingiu o estado, evidenciando a necessidade de soluções arquitetônicas resilientes às mudanças climáticas.
A partir do entendimento das múltiplas facetas do lugar, o projeto se estrutura em dois eixos temáticos: a memória e a interpretação ambiental, integrando as dimensões histórica, cultural, e ambiental da Ilha em uma proposta de preservação ativa do patrimônio.
A intervenção parte do reconhecimento da ruína do antigo presídio como testemunho material de um passado doloroso e propõe sua adaptação para criar o Memorial da Repressão e Resistência, transformando-o em um lugar de reflexão sobre as violações de direitos humanos durante a ditadura e de homenagem aos que resistiram para restabelecer a democracia.
De modo a preservar o patrimônio ambiental, a interpretação surge como caminho para uma ocupação sustentável da Ilha, promovendo a integração harmoniosa entre homem e natureza. Propõe-se a criação de um Centro de Interpretação e Pesquisa Ambiental, destinado à educação, pesquisa e experimentações voltadas à regeneração do meio ambiente, apresentadas de forma pedagógica à população. O programa inclui exposições, laboratórios e percursos que aproximam o visitante da fauna e flora locais e das infraestruturas experimentais – como o sistema wetland, as ilhas flutuantes vegetadas e a algicultura.
As intervenções propostas são pautadas na ocupação das edificações existentes e na mínima intervenção da paisagem. Assim, parte do programa é inserido nas preexistências e complementado por uma torre de observação, que reduz a ocupação do solo natural e estrutura um percurso vertical de descoberta da paisagem.
Respondendo à vulnerabilidade da Ilha frente às cheias do Guaíba, o projeto adota o conceito de arquitetura anfíbia, propondo edificações e percursos externos flutuantes. Além de mitigar danos, a estratégia reforça o caráter simbólico da proposta – uma arquitetura que, assim como a própria Ilha, resiste, se transforma e se eleva diante da instabilidade.
Mais do que intervir, o projeto busca ressignificar um lugar de isolamento e repressão em um lugar de memória, reflexão, aprendizado e resiliência. Ao cruzar arquitetura, memória e ecologia, a proposta revela um gesto de cuidado com o passado, o presente e o futuro da paisagem do rio Guaíba, utilizando o patrimônio como instrumento de transformação cultural e ambiental.

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