Existe um aspecto intrinsecamente humano no ato de velar por algo, prezar pela memória de alguém e conceder os desejos daqueles que já não podem mais. Também é inegável que, apesar de toda a poética envolvida no zelo pelos que já se foram, os espaços dedicados aos mortos são frequentemente negligenciados, consolidando-se como áreas que, embora construídas, muitas vezes se aproximam de vazios urbanos ou de zonas de risco sanitário. Este projeto se propõe a abordar essa questão de forma crítica, explorando o papel e as possibilidades dos cemitérios na sociedade contemporânea, bem como as complexidades envolvidas na concepção e na gestão desses espaços.
O Trabalho Final de Graduação tem como tema o espaço cemiterial e sua relação com as pessoas e os lugares de vida, constantemente permeada por receios, medos e crenças. Cemitérios, independentemente de suas tipologias, sejam eles verticais, horizontais ou parques, possuem um papel significativo na experiência humana. Eles são a espacialização da memória, lugares tangíveis onde se entra em contato com lembranças daqueles que já não estão mais presentes. É nesse contexto que se insere a proposta da Necrópole Ecumênica da Quarta Colônia, buscando não apenas responder às demandas práticas e urgentes da cidade e da região, mas também oferecer um ambiente que honre quem partiu e acolha quem permaneceu.
A gênese deste trabalho nasce de uma demanda real, apresentada pelo então prefeito de Faxinal do Soturno, Clóvis Alberto Montagner, que ressaltou a iminente escassez de áreas cemiteriais na cidade. O projeto se coloca, assim, como uma resposta a essa necessidade e como oportunidade de investigar, de maneira crítica e criativa, o desenho e a gestão dos espaços funerários atuais. Surge então a Necrópole Ecumênica, um equipamento completo, capaz de abrigar as atividades de velório, sepultamento, cremação e culto.
O projeto pretende atender os nove municípios da Quarta Colônia, reforçando a identidade regional e integrando-se a um sistema de equipamentos compartilhados. O local escolhido para implantação fica situado na zona rural de Faxinal do Soturno, próximo ao centro geográfico da região. A implantação descentralizada constitui uma das principais características do projeto, dispersando o programa de necessidades em diferentes edificações ao longo do terreno. Essa estratégia convida o público a caminhar pelos espaços abertos e a relacionar-se diretamente com a paisagem, reforçando um caráter bucólico, contemplativo e desacelerado, ao mesmo tempo que reduz o impacto visual do conjunto na paisagem.
Entre os edifícios, se estabelece uma linguagem comum, sempre baseada em um prisma regular e na cobertura em duas águas. Ainda assim, cada edifício assume um caráter próprio definido pela escala desses elementos. Nas salas de velório, ela é humana e intimista. No Templo Ecumênico, os mesmos elementos se ampliam e se tornam monumentais, em uma configuração que convida à contemplação.
Por fim, grande parte do trabalho dedicou-se à busca e implementação de sistemas modernos de sepultamento, coerentes com a consciência ecológica contemporânea. São empregados dois sistemas, lóculos verticais e subterrâneos, que somam mais de 40 mil espaços. Apesar da tecnologia e grande capacidade o projeto ainda preserva a atmosfera interiorana dos pequenos cemitérios locais, reforçando o compromisso de que se estabeleça uma relação de continuidade com a tradição, os cortejos, rituais e manifestações da memória.


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