Os ideais burgueses dos séculos XVIII e XIX moldaram a maternidade como dever central e
virtude feminina, impondo a divisão sexual do trabalho e limitando a presença de mulheres
na esfera pública. Para mães estudantes, a falta de políticas de apoio à permanência
universitária e ao cuidado infantil, além da ausência da divisão de responsabilidades por
parte dos pais, contribui para sua exclusão de espaços acadêmicos e profissionais. Neste
horizonte, o tema aborda mães universitárias e sua permanência acadêmica, articulando
Arquitetura e Urbanismo como instrumentos de mudança social com olhar sensível ao
gênero e à interseccionalidade.
Apesar da universidade se destacar por uma boa assistência estudantil, comumente esta
assistência é marcada pela morosidade da burocracia institucional, precariedade na
alimentação e moradia, enquanto as questões do cuidado e da maternagem seguem sendo
desconsideradas, justamente quando historicamente tem cabido à mulher o desempenho
destas tarefas que socialmente deveriam ser compartilhadas. Ao ignorar jornadas triplas de
trabalho e estudo, carência de apoio e sobrecarga, perpetua-se a desigualdade, com perdas
na formação, na inserção profissional e na saúde mental.
É necessária uma reflexão crítica das opressões sofridas pelas mulheres, destacando
recortes que vão além de gênero, como raça e classe, mas sobretudo a problemática em
torno da invisibilização das mães na sociedade.
A Casa do Estudante Universitário (CEU) de Santa Maria (RS) é um local onde as lutas se
encontram, onde são partilhadas as dificuldades, dores, experiências e indignações, para
além do espaço físico. A importância deste local recai em vir a ser considerado um
lar/morada efetivo/a para as filhas e filhos das mães estudantes, indo além do que a
assistência estudantil atualmente oferece. Lar/morada não apenas como abrigo material,
mas de garantia à existência subjetiva e à cidadania dessas mulheres, bem como à
formação lúdica das suas crianças.
A escolha de intervir nos âmbitos urbano e arquitetônico busca garantir segurança e
permanência dentro e fora dos espaços de convivência, moradia e estudo. Baseado nas
seis linhas estratégicas de Entornos Habitáveis (2017), da cooperativa Col-lectium Punt 6,
as intervenções urbana e arquitetônica representam, através da perspectiva de gênero, uma
outra alternativa de pensar a cidade e a habitação. Os entornos são: sinalizado, visível,
vital, vigiado, equipado e comunitário.
A intervenção na escala urbana de recorte de bairro, se dá através de um masterplan de
rotas seguras, que parte de incentivos e aplicação da caixa de ferramentas, um cardápio de
elementos e mobiliários que auxiliam na segurança, conforto, integração e pertencimento. A
intervenção arquitetônica se materializa através de um equipamento de Assistência
Estudantil para mães universitárias, que conta com um setor de moradia, voltado para
mães, pais, famílias e crianças; um setor de interseccionalidade, voltado para mulheres e
comunidade LGBTQIAPN+; e um setor de apoio à mãe/pai/criança, além de espaços
externos e internos de uso público.
Se para a intervenção urbana o objeto de partido é o entorno, a intervenção arquitetônica
busca na dicotomia sua conexão. É no núcleo, centro do que está em torno, que parte a
vida cotidiana e comunitária.


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