JAKOARA: ABRIGO INSTITUCIONAL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES PARA A CIDADE DE PANAMBI
Ao longo da história, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade têm sido profundamente afetados por desigualdades sociais, violência, negligência e rupturas familiares, condições que fragilizam seu desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Muitas vezes, enfrentam instabilidade, insegurança afetiva e acesso limitado à educação, saúde e convivência comunitária. Esses cenários exigem respostas institucionais capazes de oferecer proteção, cuidado especializado e ambientes preparados para reconstrução de vínculos que possibilitem trajetórias mais seguras e humanas.
Em Panambi, essa demanda é atendida pela AVOCAP, fundada em 1999 por mulheres voluntárias. Funcionando em uma casa cedida pela Prefeitura, a instituição é o único abrigo da cidade e exerce papel fundamental na rede de proteção. Entretanto, o espaço adaptado não atende às necessidades contemporâneas do acolhimento, apresentando superlotação, limitações estruturais, ausência de setorização adequada e falta de privacidade, evidenciando a urgência de um novo equipamento projetado especificamente para esse público.
O Projeto Jakoara surge como uma resposta arquitetônica sensível e necessária, implementada na cidade de Panambi/RS. Jakoara, palavra Tupi-Guarani para “proteção”, é o núcleo conceitual da proposta. A inspiração na aldeia — espaço em que todos cuidam de todos — e nas pinturas corporais indígenas, que simbolizam defesa, identidade e força, orienta todo o partido arquitetônico. O conjunto se estrutura a partir de um grande pátio central, elemento que representa o coração da aldeia, circundado pelos blocos edificados, formando um gesto de abraço e acolhimento. Esse pátio é iluminado por uma cobertura de palha sintética sextavada, com aberturas em vidro que filtram a luz e projetam no solo padrões geométricos inspirados nos grafismos indígenas, reforçando a simbologia de proteção e pertencimento.
Os volumes com telhados de duas águas, dispostos de forma orgânica, remetem à tradição construtiva simples e acolhedora das aldeias, enquanto cores e materiais naturais — com referências ao urucum, jenipapo e cúrcuma — fortalecem a relação com a ancestralidade. Assim, “Mãos que acolhem, cores que transformam” sintetiza a essência do projeto: espaços que abraçam, protegem e possibilitam novos caminhos.
A implantação no lote de esquina do bairro Fensterseifer aproveita ventilação cruzada, orientação solar favorável e relações visuais controladas. O desmembramento da gleba e a criação de uma praça pública ampliam o impacto urbano, favorecendo a reinserção das crianças na comunidade. A hierarquização dos acessos assegura segurança e fluxos independentes entre moradores, visitantes e equipe técnica.
O programa é distribuído em setores definidos — recepção, administrativo, assistencial, serviço, habitacional e social. Os dormitórios, organizados por faixas etárias, garantem conforto térmico, acústico e iluminação zenital. As áreas de convivência, como música, artes, informática, brinquedoteca e multiuso, voltam-se ao pátio central, fortalecendo integração e supervisão qualificada.
Soluções sustentáveis como ventilação cruzada, sombreamento natural, áreas permeáveis, captação de água pluvial e telhas isotérmicas asseguram eficiência térmica e ambiental. Externamente, quadra, horta, redário, playground e áreas sombreadas estimulam convivência e vínculo com a natureza.
O Projeto Jakoara propõe uma arquitetura protetora, simbólica e funcional, oferecendo dignidade, acolhimento e desenvolvimento integral às crianças e adolescentes de Panambi.


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