Estação das Plantas: Agricultura Urbana na Arquitetura

Desde aquecimento global à fome, nosso planeta nos alerta para adotarmos um novo estilo de vida. Uma “estação das plantas” dedicada a experimentar e ensinar métodos (tradicionais e inovadores) para produzir e consumir comida dentro da cidade seria um passo nesta direção: um espaço verde a ser ponto de encontro e instrumento de aprendizagem do cultivo, para capacitar aqueles que querem plantar, colher e cozinhar o próprio alimento.
Como sugerido pelo teorista da arquitetura, Mark Wigley, “crises sempre aparecem como a falha de um sistema espacial, uma falha da arquitetura; e, a crise produz novas formas”. A nova forma explorada neste trabalho parte do princípio da economia circular: com a agricultura urbana, carrega o potencial de produzir de modo orgânico e sustentável; de reduzir a cadeia de transporte dos alimentos; de reduzir o uso de embalagens; e, de prover acesso a uma dieta sustentável. Na arquitetura, também, existe circularidade, quando reaproveitamos ou reciclamos materiais construtivos, evitando a extração de novos recursos e a demolição e favorecendo a adaptação arquitetônica; além disso, quando usamos energia limpa, cisterna e outros métodos de conforto passivo.
Este trabalho busca transformar um posto de combustível, em atividade de 1958 a 2015, quando foram removidos os tanques de combustível e iniciaram-se os tratamentos de descontaminação do solo. Atualmente, um inquilino ocupa parte do lote, mas a maior parte da sua estrutura está em deterioração. No projeto proposto, preservam-se duas edificações: o galpão, que abrigou diferentes atividades industriais, e o sobrado, que funcionou como lanchonete e residência. De ambas, preservaram-se as paredes externas, construindo uma nova estrutura no interior que as conecta.
Esta proposta tem três pavimentos e abriga um programa de espaços para aprendizagem, para funcionários, para cultivo, e para lazer e cultura, circulação, sanitários, auditório e café. A circulação é um elemento a destacar, servindo como um percurso de visita que une os diferentes níveis do edifício a partir de uma rampa central, a qual, além da acessibilidade, explora as diferentes perspectivas do visitante.
Os espaços para cultivo são outro ponto de distinção: o cultivo interno usa salas com controle de luz, temperatura e umidade, enquanto o cultivo externo se divide em jardim regenerativo – com estratégias de fitorremediação e acesso irrestrito –, horta e jardim de chuva – com uma malha regular e um percurso elevado permeável à horta e ao jardim. A mesma malha é replicada no projeto arquitetônico: o uso de um modelo modular é inspirado pela arquitetura das plantas, caracterizada por Stefano Mancuso como “modular, cooperativa e distribuída”. A Mancha Ferroviária, onde o lote está localizado, é outra influência no projeto, que usa vigas e pilares de aço revestidos de vermelho e laje protendida de concreto para complementar a estética industrial.
Em conclusão, o caráter experimental e a adesão à economia circular são compatíveis ao Distrito Criativo Centro-Gare, assim como, a restauração de um espaço em deterioração contribui para a valorização do patrimônio na Mancha Ferroviária. Este projeto, portanto, estabelece sua base no passado para construir um futuro mais sustentável para todos.

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