Um Lugar para a Morte: columbário e crematório

Ao analisarmos a relação das pessoas com a morte ao longo da história da sociedade ocidental nos deparamos com um processo de afastamento gradual. Se na antiguidade greco-romana os mortos eram enterrados junto das casas, demonstrando uma proximidade entre vida e morte, hoje vemos a morte como motivo de interdição: as necrópoles são muradas e distantes dos centros urbanos.

Pensar na morte nos dá consciência da nossa existência, nos levando a buscar um sentido próprio para estarmos vivos. Com base nas ideias de Michel Serres, o homem sempre lutou contra a morte levado pelo desejo de imortalidade, mas se tornou cada vez mais humano com a descoberta progressiva da própria morte.

Considerando o afastamento contemporâneo em relação a morte e a importância dessa reflexão, o projeto tem como objetivo dar um lugar à morte, trabalhando essas questões através da arquitetura. Sendo assim, um lugar de memória aos mortos e de reflexão para os vivos, inserido o mais próximo possível da natureza para aumentar a percepção de que fazemos parte disso.
A Ilha Mauá foi escolhida para a implantação do projeto por estar localizada geograficamente à oeste do tecido urbano de Porto Alegre. Essa relação entre poente e morte, foi adotada secularmente por sociedades no passado, como os egípcios, que posicionaram as pirâmides a oeste do Nilo.

Tomando partido da relação purificadora da água e da correnteza que simboliza a passagem do tempo, o programa conta com um atracadouro próximo à península, no bairro Praia de Belas e outro na Ilha Mauá, possibilitando que as práticas funerais possam acontecer de barco. Diversas sociedades relacionaram ritos funerais com a água: os Vikings sepultavam os mortos lançando-os ao mar em barcos; os egípcios faziam a travessia dos mortos pelo Nilo; na mitologia grega, temos a figura de Caronte, o barqueiro dos mortos, que fazia a travessia dos recém mortos para a Terra de Hades, a terra dos mortos. O local escolhido junto ao aterro Praia de Belas leva em conta projetos anteriores para o local, como o Plano Diretor de 1959 e o anteprojeto para Parque Marinha do Brasil, ambos propuseram atracadouros no local, os quais não foram executados.

Além de um lugar físico para os mortos, o projeto se propõe um lugar simbólico à reflexão da ideia de morte. Sendo assim, as urnas de cremação depositadas no columbário serão iluminadas durante a noite e os pontos de luz poderão ser vistos de vários lugares de Porto Alegre.

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