Ambiente, Cultura e Ordem Espontânea: O Planejamento da Paisagem Costeira

Os assentamentos costeiros auto-organizados se caracterizam por uma enorme referenciação da população com o suporte ecológico que lhe é útil, pois ele é o instrumento dos seus modos de ganhar a vida. Essas comunidades também possuem uma grande vinculação cultural com o meio, o que ocasiona o surgimento de elementos visuais na paisagem urbana resultantes dos modos de ver o mundo, das preferências ambientais e dos saberes fazeres artesanais geracionais.
Em muitos dos casos, o assentamento e a sua expansão se dão sem ordenamentos urbanísticos. Essa problemática tende a resultar na ocupação indevida de zonas ambientalmente sensíveis, causando a degradação e alteração excessiva da paisagem natural e a vulnerabilidade socioambiental e socioeconômica das populações residentes. As circunstâncias citadas constituem entraves para a conservação das características da estética e da paisagem cultural particulares à esses tipos de assentamento.
Aos aspectos supracitados se atribui a dinâmica de formação e transformação do núcleo urbano da Colônia de Pescadores Z3, uma comunidade de pescadores profissionais artesanais que vivem junto à Laguna dos Patos, zona rural de Pelotas. O Planejamento da Paisagem Costeira coloca em pauta as problemáticas locais, buscando soluções integradas no âmbito de seis variáveis de abordagem, a saber: 1 – suporte ambiental, 2 – configuração espacial, 3 – contexto socioeconômico, 4 – paisagem cultural, 5 – cognição ambiental e 6 – ambiência urbana. É a coordenação entre todos esses aspectos que permite atitudes propositivas sustentáveis e em concordância com o caráter do local.
O processo temporal de construção das estruturas urbanas de assentamentos autogerados (sem legislação urbanística) sucedem as ações descentralizadas (bottom-up) dos mais diversos agentes internos ao espaço urbano. Essa característica implica em uma lógica de organização que se desenvolve espontaneamente desde o primeiro momento, sem a influência de ordens impostas por agentes externos ao sistema local.
No caso específico da Colônia de Pescadores Z3, essa dinâmica se mostrou descritiva dos processos presentes no local. Por um lado, a configuração espontaneamente assumida do espaço urbano permitiu que a população tomasse decisões equivocadas quanto ao direcionamento de crescimento e densificação do tecido urbano (em relação ao ambiente natural), bem como quanto às áreas preferenciais de alocação de atividades de caráter coletivo (como comércio e serviços). Por outro lado, o senso de construção sociocultural cooperativa implicou no surgimento de uma identidade unificada e democrática, evidenciada pela ambiência temática, pelos eventos do cotidiano do local, pelo comportamento simples, pelos saberes-fazeres artesanais e pelos motivos estéticos preferidos. Os dois lados se encontram quando as problemáticas socioambientais e socioeconômicos parecem influenciar na desmotivação e desinteresse da população pelas práticas culturais tradicionais e consequente descaracterização do ambiente cultural.
Por isso, a proposta do trabalho centrou-se no cruzamento ponderado de todas essas facetas, visando a co-existência dos diversos agentes no espaço de forma coordenada. Para isso, adotou-se uma visão conservacionista do ambiente cultural e da ordem espontânea locais, compatibilizada com estratégias de expansão da malha urbana, melhoramento e enriquecimento ecológico, reforço e qualificação das características estéticas e inserção de alternativas socioeconômicas de desenvolvimento sustentável.

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